24 abril 2014

"Abril Criança" de Cidálio Castro.....


Abril… criança!

Temos Abril nos lábios e nos olhos
E trazemos, ao colo, cravos de cor forte!
Abril trouxe bússolas com norte
E desfolhou vontades e abrolhos!
Temos Zeca Afonso nos ouvidos
E “Depois do Adeus” dissemos liberdade!
E veio, assim, o deambular de todos os sentidos
E resquícios de sonhos e vontade!
Pelas ruas fizemos novos rumos
Traçamos utopias, longas descobertas…
Alimentamos Ary em versos e canções
Desafiamos horizontes… dissemos frases certas
E desfiamos rosários de intenções!
Marcados, assim ficamos, pela história
Dum povo que se agiganta quando quer…
Calcorreamos primaveras pelos poros
Esbatemos, em uníssono e coros
O fustigar, de vez, a decisão de uma só voz!

Sementes, amigos… sementes de espingardas
Em símbolos de fala… e grito… e voz calada
Até que renascesse uma orvalhada
Capaz de libertar casulos por abrir… ausências por chegar!
Abril nasceu de urgências proclamadas
Por letras de canções enviesadas
Contando inteligências do querer…
Abril chegou sem auto-estradas
Buscando searas e auroras despontadas
Sedentas de seiva… com fome de viver!
O “Abril de Trigo” que Alegre escreveu
Aquele de “trevo e trégua e vinho e húmus”
É a pintura cujo quadro somos nós
E nossos pais… nosso país… nossos avós!
O povo saiu, assim, à rua da saudade
E entoou cantigas… fez fraternidade!
Voou em voo livre de gaivotas
Trilhou esteiras… soletrou revoltas
E pôs, no chão, pisadas de coragem!
Abril de “abris” que em cada ano festejamos
Tem um maná de solidez e identidade!
Abril de “maios” e “novembros" que lembramos
Pelas aldeias fora… por vielas…
Por ruas paralelas… por cidades!
Abril dos “dês”, daqueles e de outros
Que vivemos passo a passo, dia a dia…
Os “dês” da Dor, do Desespero e da Desesperança
Que desvirtuam, agora, em “governança”
Matando, a toda a hora, Abril da nova via!
… aquele Abril que queremos restaurado
Celebrado em mês inaugurado
Pela sede de novo rumo… nova esperança!
Assim faremos Portugal dos novos cravos
Nos braços pueris… desajeitados
Dum Abril, que retorna, feito criança!

Cidálio Castro